Quanto nos custa pertencer?

Ao adentrarmos o restaurante, os olhos de todas as mesas se voltaram para nós. Deveriam estar concentrados nas taças de vinho caro ou nas coxas de pato repousadas sobre uma suculenta piscina de tucupi. Mas, não, estavam voltados para nós como a evidenciar que as únicas pessoas parecidas com a gente, ali, eram as que serviam as mesas.


Essa foi exatamente a sensação revisitada ao ler as primeiras páginas de “Meridiana”, obra da carioca Eliana Alves Cruz. A percepção de não pertencimento fica evidente, desde o primeiro momento, diante da busca incansável da família por se encaixar na vida do condomínio Boungainville.


O que também fica claro, logo de cara, é o peso que essa busca por adequação tem, em maior medida, sobre as mulheres. Da necessidade de suportar o ferro quente estalando nos cabelos à missão — imposta silenciosamente — de manter a engrenagem sempre funcionando. Repetidamente, a carga do cuidado recai sobre os ombros de uma mulher. Primeiro a mãe, depois a filha.


Transitando por entre seis diferentes vozes, “Meridiana” conta a história de uma família negra que decide sair da favela rumo ao centro da cidade. Diante dos desafios da vida no condomínio de classe média, três gerações evidenciam a complexidade de se adaptar a uma realidade em que “uma conta puxava outra: o terno que sugeria a gravata; a comida que harmonizava com um vinho específico; a visita que pedia a mobília da moda; o cargo que pedia um carro… que eu não podia pagar”.


À medida que a história se desenrolava, as narrativas de Eliana me fizeram refletir sobre até que ponto estamos dispostos a ir para nos sentir pertencentes. É claro que, em muitos casos, essa nem é uma questão de escolha — mas de sobrevivência.


E, se entre tantas boas frases impressas na obra, eu pudesse apontar uma capaz de resumir a atmosfera de todo o livro, eis aqui: “A gente não consegue mesmo fugir do que é”.

Onde quer que a vida nos coloque, nossa história também chega com a gente.

Em poucas linhas

📖 Livro: Meridiana
✍🏾 Autora: Eliana Alves Cruz
Editora: Companhia das Letras
Publicação: 2025
Páginas: 184
Gênero: Romance brasileiro
Temas: Identidade, pertencimento, ascensão social, relações raciais e cuidado.

Em poucas palavras: Três gerações de uma família negra atravessam as conquistas e os custos da ascensão social, numa história contada por seis vozes.

Minha avaliação: ★★★★★

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