Contos Curtos

  • Aresta

    Aresta

    Cortou as folhas da samambaia como se aparasse as arestas da própria vida. Antes exalando o cheiro puro do verde, a planta emanava, desta vez, um som seco que mais parecia o prenúncio de seu próprio fim. Passados 63 dias longe de casa, Ângela jamais imaginou que o principal alvo de suas preocupações seria a muda cultivada no jardim mal arrumado do apartamento. No momento em que lhe foi permitido suspirar depois do susto de uma dor paralisante, porém, era ali que se encontrava.

    O corte avermelhado ainda latejava no abdômen quando decidira esticar-se para varrer as folhas secas que, caídas ao chão, insistiam em invadir a sala. Não saberia dizer em que momento a motivação se transformou. De repente, a mulher se viu cortando as folhas amarronzadas que amofinavam uma das primeiras plantas que conseguira fazer germinar.

    Começando na ponta e seguindo até a base, foi passando os dedos pelas folhas alongadas, sentindo a aspereza causada pela ausência prolongada de água. Durante o toque, a vegetação lançava sobre a mão de Ângela um pó áspero e escuro que, apesar de pouco agradável, não incomodava a ponto de lhe fazer abdicar do ato. Quando, guiados pelo talo ressecado, os dedos se aproximavam da terra cinzenta, o corte vinha seco e incisivo, derrubando ao chão qualquer fragmento não mais admitido.