Oração para desaparecer e o fantástico que já existia antes da ficção

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, no Ceará, cuja história de soterramento pelas dunas inspirou elementos de Oração para desaparecer, de Socorro Acioli. Foto: Reprodução/Iphan

Eu demorei a chegar à obra de Socorro Acioli. O livro mais famoso da escritora cearense foi lançado em 2014, mas meu primeiro contato com sua literatura veio apenas em 2025. Já apaixonada pelo gênero, fui imediatamente fisgada pela narrativa de A Cabeça do Santo. Conhecer fatos inegavelmente fantásticos, mas que poderiam perfeitamente figurar nas páginas de algum jornal deste Brasil profundo, com certeza contribuiu muito para isso.

Depois de terminar o romance, nascido de uma história que encantou Gabriel García Márquez, decidi não seguir imediatamente para Oração para desaparecer. Confesso que temia que a segunda leitura soasse repetitiva se viesse logo após a primeira.

O encontro com o segundo livro aconteceu quase um ano depois, em julho de 2026. Foi quando me arrependi de ter esperado.

Devorei a história de Cida em um fim de semana. A imagem nítida de seu desenterramento, em um pedaço de terra de uma aldeia em Portugal, foi mais que suficiente para que eu não conseguisse parar de ler. E, outra vez, a familiaridade com as referências brasileiras da história me levou a uma sensação de pertencimento.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou.” Trecho de Oração Para Desaparecer, de Socorro Acioli.

Tal qual a surpresa de descobrir que, de fato, a estátua de Santo Antônio permaneceu sem cabeça por quase quatro décadas no município cearense de Caridade, fiquei incrédula ao perceber que realmente existiu uma igreja soterrada em uma comunidade litorânea e, mais do que isso, que existe uma oração para desaparecer.

Areia acumulada no interior da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala evidencia os efeitos do soterramento do templo pelas dunas. Foto: Arquivo Superintendência do Iphan no Ceará

A igreja que desapareceu

No fim do século XIX, em 1897, uma mudança no regime dos ventos fez com que a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no distrito de Almofala, em Itarema, no Ceará, começasse a ser tomada pelas dunas.

Aos poucos, a areia se acumulou ao redor da construção até encobri-la completamente. A igreja permaneceu soterrada por décadas e poderia ter caído no esquecimento não fosse outra mudança provocada pelos ventos.

Já na década de 1940, a dispersão da areia fez com que o templo voltasse a aparecer.

Mais do que a curiosidade provocada pelo fenômeno natural, porém, a construção guarda uma importância histórica particular. O templo integrou um aldeamento de indígenas Tremembé na região ainda no século XVIII e foi construído com recursos da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Almofala.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala durante os trabalhos de restauração realizados em 1983. Foto: Arquivo Superintendência do Iphan no Ceará

O soterramento fez com que o interior da igreja fosse praticamente destruído. Décadas depois de ressurgir das dunas, o templo, tombado em 1980, foi restaurado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1983.

Foi justamente a região onde essa igreja foi construída que permitiu a Socorro Acioli conectar sua história à ancestralidade indígena.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala após a recuperação do templo que permaneceu soterrado pelas dunas durante décadas. Foto: Reprodução/Prefeitura de Itarema

A oração que Socorro não revelou

O povo Tremembé possui uma oração para desaparecer, rezada em situações de conflito.

Socorro Acioli conheceu essa tradição durante a pesquisa para Oração para desaparecer, ao conversar com um pajé e com o pesquisador Ronaldo Queiroz. A prece acabou dando nome ao romance, mas há um detalhe que torna essa relação entre realidade e ficção ainda mais interessante: a oração apresentada no livro foi criada pela própria escritora.

Socorro escolheu não reproduzir a reza Tremembé.

“Fiquei com medo de divulgá-la porque depois as pessoas iam começar a desaparecer e eu ia ser culpada”, disse a autora em entrevista ao Diário do Nordeste.

Saber dessas nuances, ainda anestesiada pelo fim do romance, certamente contribuiu para aumentar meu encantamento pela obra de Socorro Acioli. Por meio do fantástico, a escritora nos conduz a lugares, histórias e tradições profundamente enraizados no Brasil.

Talvez isso também ajude a explicar por que seus livros encontraram tantos leitores. Em 2023, os dois romances figuraram entre os mais vendidos da Livraria da Travessa durante a Flip: Oração para desaparecer ficou em primeiro lugar e A Cabeça do Santo, em terceiro.

Depois de conhecer Cida, Almofala e a oração que Socorro preferiu não revelar, meu maior arrependimento talvez tenha sido mesmo ter esperado tanto. Primeiro, para chegar à obra da escritora. Depois, para voltar a ela.

Desta vez, não pretendo demorar tanto para o próximo encontro.

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