Esqueça por um momento os José Arcádios e Aurelianos que se multiplicam ao longo de Cem Anos de Solidão. É quando a atenção se volta para Úrsula Iguaran que a potência da obra-prima de Gabriel García Márquez se torna mais evidente. Não à toa, a matriarca da família é o motor que dá continuidade à série de desventuras que se desencadeiam ao longo de várias gerações da mesma família.
Desde que o casal de primos apaixonados decide enfrentar as superstições de seus antepassados para viver o próprio amor, a figura de Úrsula se impõe na obra. Embora pareça ocupar o lugar da mulher que se coloca em segundo plano para dar vazão aos impulsos do homem que ama e, mais tarde, dos próprios filhos, a matriarca se revela a verdadeira espinha dorsal daquela família. A sobrevivente que, mesmo atravessada por conflitos, desentendimentos, rompantes de loucura e guerras, segue firme não apenas no comando da família, mas da própria comunidade criada a partir do nascimento de Macondo.

O impacto de Úrsula ficou evidente para mim quando li Cem Anos de Solidão pela primeira vez, em meados de 2005. Lembro de pensar no tanto que aquela mulher sofreu ao longo da vida, acompanhando cada episódio fantástico que tomou aquela família no decorrer das gerações. Mas outra percepção surgiu quando terminei de assistir à segunda parte da série da Netflix inspirada na obra de Gabo: a força de Úrsula.
É natural considerar o efeito dos anos passados também na minha própria vida. A pessoa que eu me tornei entre os 16 e os 37 anos faz com que eu tenha uma visão mais clara da força da personagem e, sobretudo, da conexão dela com a própria realidade das mulheres latino-americanas.
São os esteios de famílias e comunidades inteiras que, por muitos anos, talvez por gerações inteiras, são vistos pelos olhos menos atentos como coadjuvantes de histórias que, sem eles, sequer se sustentariam.

O reencontro com Macondo, 21 anos depois
Aos 16 anos, conheci Úrsula pelas páginas de uma edição de Cem Anos de Solidão de 1985, que minha mãe guardava desde a juventude. Aos 37, reencontrei a matriarca e Macondo pela tela.
A obra mais conhecida de Gabo foi publicada originalmente em 30 de maio de 1967 e, quase 60 anos depois, a história chegou a um dos formatos mais populares do nosso tempo: o streaming. Não é preciso entender de produção audiovisual para ter dimensão do desafio de adaptar uma obra tão complexa.
Além do mundo fantástico impresso por García Márquez na história de Cem Anos de Solidão, cada um dos muitos personagens é um universo em si mesmo. Até hoje me pego refletindo sobre como uma cabeça pensante foi capaz de criar uma obra povoada por tantos personagens complexos.
Em Cem Anos de Solidão, Gabo constrói personagens secundários com uma densidade incomum, particularmente as figuras femininas.

Um dos grandes acertos da adaptação talvez esteja na decisão da Netflix de atender às exigências da família do escritor: o formato de série, os pés fincados na Colômbia e a produção falada em espanhol.
Para além disso, a fidelidade à obra escrita, a escolha de um elenco que entrega interpretações primorosas e a capacidade de materializar Macondo na tela despertaram na minha memória aquele universo que eu conhecia apenas pelas páginas do livro.
Dois funerais e duas despedidas
Entre tantas cenas marcantes recriadas pela série, uma em especial me pegou. Fiel ao livro, quando José Arcádio Buendía morre, ainda na primeira parte da adaptação, uma multidão acompanha o cortejo fúnebre em meio às camadas de flores amarelas que caíram do céu durante toda a noite.
Quando Úrsula, enfim, descansa após a chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias, poucas pessoas acompanham seu caixão pelas ruas de Macondo.
A mulher que, com os doces feitos na cozinha de casa, sustentou a família inteira quando o marido decidiu abrir mão de tudo para se dedicar aos experimentos de Melquíades; a mãe que assumiu o comando e tomou as rédeas da comunidade quando Arcádio deixou o poder subir à cabeça; a idosa que dobrou a personagem mais cruel de toda a desventura, a beata Fernanda del Carpio: é essa mulher, que passou a vida inteira impedindo que aquela casa e aquela família desmoronassem, que morre quando a própria Macondo já caminha para a ruína.

É impossível não considerar a divergência entre a pompa que marcou a despedida de José Arcádio e a desolação presente na de Úrsula.
Quando voltamos o olhar para a realidade, inclusive a vivenciada até os dias de hoje, é difícil olhar para essa disparidade como um detalhe inocente. É mais uma particularidade que comprova a grandiosidade de obras como Cem Anos de Solidão, capazes de atravessar as barreiras do tempo e conversar — ainda que por meio do fantástico — com as realidades do presente.

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