Cintia Magno

  • Quanto nos custa pertencer?

    Quanto nos custa pertencer?

    Ao adentrarmos o restaurante, os olhos de todas as mesas se voltaram para nós. Deveriam estar concentrados nas taças de vinho caro ou nas coxas de pato repousadas sobre uma suculenta piscina de tucupi. Mas, não, estavam voltados para nós como a evidenciar que as únicas pessoas parecidas com a gente, ali, eram as que serviam as mesas.


    Essa foi exatamente a sensação revisitada ao ler as primeiras páginas de “Meridiana”, obra da carioca Eliana Alves Cruz. A percepção de não pertencimento fica evidente, desde o primeiro momento, diante da busca incansável da família por se encaixar na vida do condomínio Boungainville.


    O que também fica claro, logo de cara, é o peso que essa busca por adequação tem, em maior medida, sobre as mulheres. Da necessidade de suportar o ferro quente estalando nos cabelos à missão — imposta silenciosamente — de manter a engrenagem sempre funcionando. Repetidamente, a carga do cuidado recai sobre os ombros de uma mulher. Primeiro a mãe, depois a filha.


    Transitando por entre seis diferentes vozes, “Meridiana” conta a história de uma família negra que decide sair da favela rumo ao centro da cidade. Diante dos desafios da vida no condomínio de classe média, três gerações evidenciam a complexidade de se adaptar a uma realidade em que “uma conta puxava outra: o terno que sugeria a gravata; a comida que harmonizava com um vinho específico; a visita que pedia a mobília da moda; o cargo que pedia um carro… que eu não podia pagar”.


    À medida que a história se desenrolava, as narrativas de Eliana me fizeram refletir sobre até que ponto estamos dispostos a ir para nos sentir pertencentes. É claro que, em muitos casos, essa nem é uma questão de escolha — mas de sobrevivência.


    E, se entre tantas boas frases impressas na obra, eu pudesse apontar uma capaz de resumir a atmosfera de todo o livro, eis aqui: “A gente não consegue mesmo fugir do que é”.

    Onde quer que a vida nos coloque, nossa história também chega com a gente.

    Em poucas linhas

    📖 Livro: Meridiana
    ✍🏾 Autora: Eliana Alves Cruz
    Editora: Companhia das Letras
    Publicação: 2025
    Páginas: 184
    Gênero: Romance brasileiro
    Temas: Identidade, pertencimento, ascensão social, relações raciais e cuidado.

    Em poucas palavras: Três gerações de uma família negra atravessam as conquistas e os custos da ascensão social, numa história contada por seis vozes.

    Minha avaliação: ★★★★★

  • Aresta

    Aresta

    Cortou as folhas da samambaia como se aparasse as arestas da própria vida. Antes exalando o cheiro puro do verde, a planta emanava, desta vez, um som seco que mais parecia o prenúncio de seu próprio fim. Passados 63 dias longe de casa, Ângela jamais imaginou que o principal alvo de suas preocupações seria a muda cultivada no jardim mal arrumado do apartamento. No momento em que lhe foi permitido suspirar depois do susto de uma dor paralisante, porém, era ali que se encontrava.

    O corte avermelhado ainda latejava no abdômen quando decidira esticar-se para varrer as folhas secas que, caídas ao chão, insistiam em invadir a sala. Não saberia dizer em que momento a motivação se transformou. De repente, a mulher se viu cortando as folhas amarronzadas que amofinavam uma das primeiras plantas que conseguira fazer germinar.

    Começando na ponta e seguindo até a base, foi passando os dedos pelas folhas alongadas, sentindo a aspereza causada pela ausência prolongada de água. Durante o toque, a vegetação lançava sobre a mão de Ângela um pó áspero e escuro que, apesar de pouco agradável, não incomodava a ponto de lhe fazer abdicar do ato. Quando, guiados pelo talo ressecado, os dedos se aproximavam da terra cinzenta, o corte vinha seco e incisivo, derrubando ao chão qualquer fragmento não mais admitido.

  • Oração para desaparecer e o fantástico que já existia antes da ficção

    Oração para desaparecer e o fantástico que já existia antes da ficção

    Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, no Ceará, cuja história de soterramento pelas dunas inspirou elementos de Oração para desaparecer, de Socorro Acioli. Foto: Reprodução/Iphan

    Eu demorei a chegar à obra de Socorro Acioli. O livro mais famoso da escritora cearense foi lançado em 2014, mas meu primeiro contato com sua literatura veio apenas em 2025. Já apaixonada pelo gênero, fui imediatamente fisgada pela narrativa de A Cabeça do Santo. Conhecer fatos inegavelmente fantásticos, mas que poderiam perfeitamente figurar nas páginas de algum jornal deste Brasil profundo, com certeza contribuiu muito para isso.

    Depois de terminar o romance, nascido de uma história que encantou Gabriel García Márquez, decidi não seguir imediatamente para Oração para desaparecer. Confesso que temia que a segunda leitura soasse repetitiva se viesse logo após a primeira.

    O encontro com o segundo livro aconteceu quase um ano depois, em julho de 2026. Foi quando me arrependi de ter esperado.

    Devorei a história de Cida em um fim de semana. A imagem nítida de seu desenterramento, em um pedaço de terra de uma aldeia em Portugal, foi mais que suficiente para que eu não conseguisse parar de ler. E, outra vez, a familiaridade com as referências brasileiras da história me levou a uma sensação de pertencimento.

    “Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou.” Trecho de Oração Para Desaparecer, de Socorro Acioli.

    Tal qual a surpresa de descobrir que, de fato, a estátua de Santo Antônio permaneceu sem cabeça por quase quatro décadas no município cearense de Caridade, fiquei incrédula ao perceber que realmente existiu uma igreja soterrada em uma comunidade litorânea e, mais do que isso, que existe uma oração para desaparecer.

    Areia acumulada no interior da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala evidencia os efeitos do soterramento do templo pelas dunas. Foto: Arquivo Superintendência do Iphan no Ceará

    A igreja que desapareceu

    No fim do século XIX, em 1897, uma mudança no regime dos ventos fez com que a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no distrito de Almofala, em Itarema, no Ceará, começasse a ser tomada pelas dunas.

    Aos poucos, a areia se acumulou ao redor da construção até encobri-la completamente. A igreja permaneceu soterrada por décadas e poderia ter caído no esquecimento não fosse outra mudança provocada pelos ventos.

    Já na década de 1940, a dispersão da areia fez com que o templo voltasse a aparecer.

    Mais do que a curiosidade provocada pelo fenômeno natural, porém, a construção guarda uma importância histórica particular. O templo integrou um aldeamento de indígenas Tremembé na região ainda no século XVIII e foi construído com recursos da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Almofala.

    Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala durante os trabalhos de restauração realizados em 1983. Foto: Arquivo Superintendência do Iphan no Ceará

    O soterramento fez com que o interior da igreja fosse praticamente destruído. Décadas depois de ressurgir das dunas, o templo, tombado em 1980, foi restaurado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1983.

    Foi justamente a região onde essa igreja foi construída que permitiu a Socorro Acioli conectar sua história à ancestralidade indígena.

    Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala após a recuperação do templo que permaneceu soterrado pelas dunas durante décadas. Foto: Reprodução/Prefeitura de Itarema

    A oração que Socorro não revelou

    O povo Tremembé possui uma oração para desaparecer, rezada em situações de conflito.

    Socorro Acioli conheceu essa tradição durante a pesquisa para Oração para desaparecer, ao conversar com um pajé e com o pesquisador Ronaldo Queiroz. A prece acabou dando nome ao romance, mas há um detalhe que torna essa relação entre realidade e ficção ainda mais interessante: a oração apresentada no livro foi criada pela própria escritora.

    Socorro escolheu não reproduzir a reza Tremembé.

    “Fiquei com medo de divulgá-la porque depois as pessoas iam começar a desaparecer e eu ia ser culpada”, disse a autora em entrevista ao Diário do Nordeste.

    Saber dessas nuances, ainda anestesiada pelo fim do romance, certamente contribuiu para aumentar meu encantamento pela obra de Socorro Acioli. Por meio do fantástico, a escritora nos conduz a lugares, histórias e tradições profundamente enraizados no Brasil.

    Talvez isso também ajude a explicar por que seus livros encontraram tantos leitores. Em 2023, os dois romances figuraram entre os mais vendidos da Livraria da Travessa durante a Flip: Oração para desaparecer ficou em primeiro lugar e A Cabeça do Santo, em terceiro.

    Depois de conhecer Cida, Almofala e a oração que Socorro preferiu não revelar, meu maior arrependimento talvez tenha sido mesmo ter esperado tanto. Primeiro, para chegar à obra da escritora. Depois, para voltar a ela.

    Desta vez, não pretendo demorar tanto para o próximo encontro.

    Em poucas linhas

    📖 Livro: Oração para desaparecer
    ✍🏽 Autora: Socorro Acioli
    Editora: Companhia das Letras
    Publicação: 2023
    Páginas: 272
    Gênero: Romance brasileiro
    Temas: Memória, identidade, amor, ancestralidade, religiosidade e realismo mágico.

    Em poucas palavras: Uma mulher desperta enterrada em uma pequena aldeia de Portugal, sem memória de quem é, e inicia uma jornada para reconstruir a própria história.

    Minha avaliação: ★★★★★

  • Cem Anos de Solidão: reencontrei Úrsula 21 anos depois e não enxerguei mais a mesma mulher

    Cem Anos de Solidão: reencontrei Úrsula 21 anos depois e não enxerguei mais a mesma mulher

    Esqueça por um momento os José Arcádios e Aurelianos que se multiplicam ao longo de Cem Anos de Solidão. É quando a atenção se volta para Úrsula Iguaran que a potência da obra-prima de Gabriel García Márquez se torna mais evidente. Não à toa, a matriarca da família é o motor que dá continuidade à série de desventuras que se desencadeiam ao longo de várias gerações da mesma família.

    Desde que o casal de primos apaixonados decide enfrentar as superstições de seus antepassados para viver o próprio amor, a figura de Úrsula se impõe na obra. Embora pareça ocupar o lugar da mulher que se coloca em segundo plano para dar vazão aos impulsos do homem que ama e, mais tarde, dos próprios filhos, a matriarca se revela a verdadeira espinha dorsal daquela família. A sobrevivente que, mesmo atravessada por conflitos, desentendimentos, rompantes de loucura e guerras, segue firme não apenas no comando da família, mas da própria comunidade criada a partir do nascimento de Macondo.

    Úrsula Iguarán é a espinha dorsal da família Buendía e uma presença fundamental na trajetória de Macondo. Foto: Divulgação/Netflix

    O impacto de Úrsula ficou evidente para mim quando li Cem Anos de Solidão pela primeira vez, em meados de 2005. Lembro de pensar no tanto que aquela mulher sofreu ao longo da vida, acompanhando cada episódio fantástico que tomou aquela família no decorrer das gerações. Mas outra percepção surgiu quando terminei de assistir à segunda parte da série da Netflix inspirada na obra de Gabo: a força de Úrsula.

    É natural considerar o efeito dos anos passados também na minha própria vida. A pessoa que eu me tornei entre os 16 e os 37 anos faz com que eu tenha uma visão mais clara da força da personagem e, sobretudo, da conexão dela com a própria realidade das mulheres latino-americanas.

    São os esteios de famílias e comunidades inteiras que, por muitos anos, talvez por gerações inteiras, são vistos pelos olhos menos atentos como coadjuvantes de histórias que, sem eles, sequer se sustentariam.

    A força de Úrsula está também na capacidade de permanecer de pé enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Foto: Divulgação/Netflix

    O reencontro com Macondo, 21 anos depois

    Aos 16 anos, conheci Úrsula pelas páginas de uma edição de Cem Anos de Solidão de 1985, que minha mãe guardava desde a juventude. Aos 37, reencontrei a matriarca e Macondo pela tela.

    A obra mais conhecida de Gabo foi publicada originalmente em 30 de maio de 1967 e, quase 60 anos depois, a história chegou a um dos formatos mais populares do nosso tempo: o streaming. Não é preciso entender de produção audiovisual para ter dimensão do desafio de adaptar uma obra tão complexa.

    Além do mundo fantástico impresso por García Márquez na história de Cem Anos de Solidão, cada um dos muitos personagens é um universo em si mesmo. Até hoje me pego refletindo sobre como uma cabeça pensante foi capaz de criar uma obra povoada por tantos personagens complexos.

    Em Cem Anos de Solidão, Gabo constrói personagens secundários com uma densidade incomum, particularmente as figuras femininas.

    Foi nesta edição de 1985 de Cem Anos de Solidão, guardada pela minha mãe desde a juventude, que conheci Macondo aos 16 anos. Foto: Reprodução

    Um dos grandes acertos da adaptação talvez esteja na decisão da Netflix de atender às exigências da família do escritor: o formato de série, os pés fincados na Colômbia e a produção falada em espanhol.

    Para além disso, a fidelidade à obra escrita, a escolha de um elenco que entrega interpretações primorosas e a capacidade de materializar Macondo na tela despertaram na minha memória aquele universo que eu conhecia apenas pelas páginas do livro.

    Dois funerais e duas despedidas

    Entre tantas cenas marcantes recriadas pela série, uma em especial me pegou. Fiel ao livro, quando José Arcádio Buendía morre, ainda na primeira parte da adaptação, uma multidão acompanha o cortejo fúnebre em meio às camadas de flores amarelas que caíram do céu durante toda a noite.

    Quando Úrsula, enfim, descansa após a chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias, poucas pessoas acompanham seu caixão pelas ruas de Macondo.

    A mulher que, com os doces feitos na cozinha de casa, sustentou a família inteira quando o marido decidiu abrir mão de tudo para se dedicar aos experimentos de Melquíades; a mãe que assumiu o comando e tomou as rédeas da comunidade quando Arcádio deixou o poder subir à cabeça; a idosa que dobrou a personagem mais cruel de toda a desventura, a beata Fernanda del Carpio: é essa mulher, que passou a vida inteira impedindo que aquela casa e aquela família desmoronassem, que morre quando a própria Macondo já caminha para a ruína.

    Depois de atravessar gerações da família Buendía, Úrsula se despede de uma Macondo já transformada pelo tempo. Foto: Divulgação/Netflix

    É impossível não considerar a divergência entre a pompa que marcou a despedida de José Arcádio e a desolação presente na de Úrsula.

    Quando voltamos o olhar para a realidade, inclusive a vivenciada até os dias de hoje, é difícil olhar para essa disparidade como um detalhe inocente. É mais uma particularidade que comprova a grandiosidade de obras como Cem Anos de Solidão, capazes de atravessar as barreiras do tempo e conversar — ainda que por meio do fantástico — com as realidades do presente.

    Em poucas linhas

    📖 Livro: Cem Anos de Solidão
    ✍🏽 Autor: Gabriel García Márquez
    Editora: Editorial Sudamericana
    Publicação: 1967
    Gênero: Romance latino-americano
    Temas: Família, memória, solidão, amor, poder, tempo e realismo mágico.

    Em poucas palavras: Ao longo de sete gerações, a família Buendía atravessa amores, guerras, perdas e repetições enquanto sua história se confunde com a ascensão e a ruína de Macondo.

    Minha avaliação: ★★★★★

  • As histórias que habitam o imaginário de Belém

    As histórias que habitam o imaginário de Belém

    Registradas por Walcyr Monteiro, histórias de visagens e assombrações continuam circulando pelo imaginário de Belém décadas depois de terem sido reunidas em livro. Imagem restaurada com uso de inteligência artificial. Foto: Robert S. Platt/Reprodução/FAU UFPA

    Na Belém dos tempos em que a televisão ainda não fazia parte da rotina das famílias, histórias de visagens e assombrações ocupavam espaço no imaginário popular. Contadas à noite, nas portas das casas, essas narrativas atravessaram gerações e permanecem vivas.

    Em uma cidade com poucas opções de lazer noturno, os relatos falavam de fantasmas que passeavam de táxi pelas ruas, surgiam próximos a igarapés e até rezavam diante de cruzeiros.

    Mais do que simples crendices, essas histórias guardam vestígios de outra Belém: dos lugares que mudaram, dos hábitos que desapareceram e da memória transmitida de uma geração para outra.

    A Moça do Táxi

    Capela do Cemitério de Santa Izabel em meados de 1902. A necrópole está ligada à lenda da Moça do Táxi. Imagem restaurada com uso de inteligência artificial. Foto: Álbum de Belém de 1902/Acervo Biblioteca Pública Arthur Vianna

    Em um dos corredores principais do Cemitério de Santa Izabel, no bairro do Guamá, uma sepultura simples traz o nome de Josephina Conte, jovem que morreu aos 16 anos.

    Para muitos moradores, porém, o túmulo está ligado a uma das lendas mais conhecidas de Belém: a Moça do Táxi.

    Segundo o conto, por volta das 22h de certa noite, um taxista recebeu uma passageira na avenida Independência. A jovem pediu que ele seguisse até a avenida José Bonifácio, em frente ao Cemitério de Santa Izabel.

    Ao chegar ao destino, a passageira informou que não poderia pagar naquele momento e entregou ao motorista um endereço para que ele recebesse o valor da corrida na manhã seguinte.

    Quando foi ao local indicado, o taxista descobriu que a jovem que reconheceu em um retrato já havia morrido. A passageira seria justamente Josephina Conte.

    A história sobreviveu à passagem do tempo e tornou o túmulo associado à jovem um ponto de curiosidade. Funcionários do cemitério relatam que visitantes ainda procuram informações sobre a lenda e que algumas pessoas acendem velas no local e agradecem por graças alcançadas.

    O Padre Sem Cabeça do Telégrafo

    No bairro do Telégrafo, outra história atravessou décadas e permanece na memória de antigos moradores.

    No final da rua Curuçá, um cruzeiro está associado à aparição do Padre Sem Cabeça.

    Segundo a lenda, um morador conhecido como Zé Bezerra voltava do trabalho tarde da noite quando avistou um padre rezando diante da cruz.

    Ao se aproximar, percebeu algo assustador: a figura usava batina, mas não tinha cabeça.

    Depois do relato de Zé Bezerra, outras pessoas também afirmaram ter visto a aparição.

    No fim da rua Curuçá, no bairro do Telégrafo, um cruzeiro é associado à lenda do Padre Sem Cabeça. Segundo o relato de Zé Bezerra, ele voltava do trabalho à noite quando viu uma figura de batina rezando diante da cruz. Ao se aproximar, percebeu que ela não tinha cabeça. Foto: Reprodução/Google Maps

    Walcyr Monteiro e as histórias que Belém contava

    Parte importante desse imaginário foi preservada pelo escritor paraense Walcyr Monteiro (1940–2019).

    Preocupado em evitar que as narrativas desaparecessem com o tempo, Monteiro começou a registrá-las em 1972, em publicações no extinto jornal A Província do Pará.

    Os relatos acabaram reunidos no livro Visagens e Assombrações de Belém, cuja primeira edição chegou ao público em 1986, com 25 histórias.

    Walcyr Monteiro fazia questão de ressaltar que não havia inventado os relatos. As histórias haviam sido transmitidas pela própria população e foram coletadas pelo escritor entre 1969 e 1972.

    O que antes circulava principalmente pela oralidade encontrou nas páginas uma forma de permanecer. Décadas depois, personagens como a Moça do Táxi e o Padre Sem Cabeça continuam associados a lugares reais da cidade — como se a geografia de Belém também guardasse suas assombrações.

    Em 2026, Visagens e Assombrações de Belém completa 40 anos de sua primeira edição. A obra de Walcyr Monteiro permanece como uma das principais referências sobre as lendas urbanas da capital paraense. Foto: Reprodução

    O Estranho Caso do Dr. X

    Considerada uma das histórias mais antigas da coletânea, O Estranho Caso do Dr. X teria ocorrido no início do século XX.

    O conto acompanha um médico que viveu em Belém durante o ciclo da borracha. Certa noite, um homem bateu à sua porta pedindo ajuda para a realização de um parto.

    A partir daí, a narrativa mergulha em mistérios envolvendo as pessoas atendidas pelo médico e o lugar para onde ele foi conduzido com os olhos vendados: um quarto luxuoso decorado no estilo do século XVII.

    O Igarapé das Almas

    Segundo a lenda, o Igarapé das Almas ficava onde hoje passa o canal da avenida Visconde de Souza Franco, em Belém. O nome teria surgido dos relatos de aparições de cabanos que voltavam ao lugar em busca de armas escondidas durante a Cabanagem. Imagem restaurada com uso de inteligência artificial. Foto: Reprodução/Belém Nostalgia.

    Algumas das histórias preservadas por Walcyr Monteiro também guardam a memória de uma cidade que já não existe da mesma maneira.

    O chamado Igarapé das Almas ficava onde hoje está o canal da avenida Visconde de Souza Franco e aparece como cenário de diferentes histórias de visagens.

    Segundo os relatos, pessoas afirmavam ter visto fantasmas de cabanos procurando armas que teriam sido escondidas no igarapé durante a Cabanagem.

    Na história A Porca do Reduto, também era para o igarapé que corria uma porca que surgia e desaparecia misteriosamente depois de circular pelo bairro.

    O sobrenatural, nesse caso, acaba preservando também uma espécie de mapa antigo de Belém. Quem hoje conhece a Visconde de Souza Franco como uma das grandes avenidas da cidade talvez passe por ali sem imaginar o igarapé que um dia ocupou aquela paisagem — muito menos as almas que, segundo as histórias, vagavam por suas margens.

    Noivado Sobrenatural

    Em Noivado Sobrenatural, uma noite de tempestade serve de cenário para o encontro entre um rapaz e uma jovem. Os dois se aproximam e ele acaba pedindo a mão da moça em casamento.

    Mais tarde, porém, o rapaz descobre que ela já havia morrido.

    A revelação o leva até uma lápide que registrava a morte da jovem em 1918. Diante dela, teria encontrado a mesma aliança que havia entregado à mulher.

    Histórias como essa sobreviveram primeiro porque alguém as contou. Depois, porque outras pessoas decidiram contá-las novamente.

    As portas das casas deram lugar aos livros e, mais tarde, às telas. Belém também se transformou. Igarapés desapareceram da paisagem, bairros cresceram e hábitos cotidianos mudaram.

    As visagens, curiosamente, ficaram.

    Fonte: Visagens e Assombrações de Belém, de Walcyr Monteiro.