Cintia Magno

  • Cem Anos de Solidão: reencontrei Úrsula 21 anos depois e não enxerguei mais a mesma mulher

    Cem Anos de Solidão: reencontrei Úrsula 21 anos depois e não enxerguei mais a mesma mulher

    Esqueça por um momento os José Arcádios e Aurelianos que se multiplicam ao longo de Cem Anos de Solidão. É quando a atenção se volta para Úrsula Iguaran que a potência da obra-prima de Gabriel García Márquez se torna mais evidente. Não à toa, a matriarca da família é o motor que dá continuidade à série de desventuras que se desencadeiam ao longo de várias gerações da mesma família.

    Desde que o casal de primos apaixonados decide enfrentar as superstições de seus antepassados para viver o próprio amor, a figura de Úrsula se impõe na obra. Embora pareça ocupar o lugar da mulher que se coloca em segundo plano para dar vazão aos impulsos do homem que ama e, mais tarde, dos próprios filhos, a matriarca se revela a verdadeira espinha dorsal daquela família. A sobrevivente que, mesmo atravessada por conflitos, desentendimentos, rompantes de loucura e guerras, segue firme não apenas no comando da família, mas da própria comunidade criada a partir do nascimento de Macondo.

    Úrsula Iguarán é a espinha dorsal da família Buendía e uma presença fundamental na trajetória de Macondo. Foto: Divulgação/Netflix

    O impacto de Úrsula ficou evidente para mim quando li Cem Anos de Solidão pela primeira vez, em meados de 2005. Lembro de pensar no tanto que aquela mulher sofreu ao longo da vida, acompanhando cada episódio fantástico que tomou aquela família no decorrer das gerações. Mas outra percepção surgiu quando terminei de assistir à segunda parte da série da Netflix inspirada na obra de Gabo: a força de Úrsula.

    É natural considerar o efeito dos anos passados também na minha própria vida. A pessoa que eu me tornei entre os 16 e os 37 anos faz com que eu tenha uma visão mais clara da força da personagem e, sobretudo, da conexão dela com a própria realidade das mulheres latino-americanas.

    São os esteios de famílias e comunidades inteiras que, por muitos anos, talvez por gerações inteiras, são vistos pelos olhos menos atentos como coadjuvantes de histórias que, sem eles, sequer se sustentariam.

    A força de Úrsula está também na capacidade de permanecer de pé enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Foto: Divulgação/Netflix

    O reencontro com Macondo, 21 anos depois

    Aos 16 anos, conheci Úrsula pelas páginas de uma edição de Cem Anos de Solidão de 1985, que minha mãe guardava desde a juventude. Aos 37, reencontrei a matriarca e Macondo pela tela.

    A obra mais conhecida de Gabo foi publicada originalmente em 30 de maio de 1967 e, quase 60 anos depois, a história chegou a um dos formatos mais populares do nosso tempo: o streaming. Não é preciso entender de produção audiovisual para ter dimensão do desafio de adaptar uma obra tão complexa.

    Além do mundo fantástico impresso por García Márquez na história de Cem Anos de Solidão, cada um dos muitos personagens é um universo em si mesmo. Até hoje me pego refletindo sobre como uma cabeça pensante foi capaz de criar uma obra povoada por tantos personagens complexos.

    Em Cem Anos de Solidão, Gabo constrói personagens secundários com uma densidade incomum, particularmente as figuras femininas.

    Foi nesta edição de 1985 de Cem Anos de Solidão, guardada pela minha mãe desde a juventude, que conheci Macondo aos 16 anos. Foto: Reprodução

    Um dos grandes acertos da adaptação talvez esteja na decisão da Netflix de atender às exigências da família do escritor: o formato de série, os pés fincados na Colômbia e a produção falada em espanhol.

    Para além disso, a fidelidade à obra escrita, a escolha de um elenco que entrega interpretações primorosas e a capacidade de materializar Macondo na tela despertaram na minha memória aquele universo que eu conhecia apenas pelas páginas do livro.

    Dois funerais e duas despedidas

    Entre tantas cenas marcantes recriadas pela série, uma em especial me pegou. Fiel ao livro, quando José Arcádio Buendía morre, ainda na primeira parte da adaptação, uma multidão acompanha o cortejo fúnebre em meio às camadas de flores amarelas que caíram do céu durante toda a noite.

    Quando Úrsula, enfim, descansa após a chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias, poucas pessoas acompanham seu caixão pelas ruas de Macondo.

    A mulher que, com os doces feitos na cozinha de casa, sustentou a família inteira quando o marido decidiu abrir mão de tudo para se dedicar aos experimentos de Melquíades; a mãe que assumiu o comando e tomou as rédeas da comunidade quando Arcádio deixou o poder subir à cabeça; a idosa que dobrou a personagem mais cruel de toda a desventura, a beata Fernanda del Carpio: é essa mulher, que passou a vida inteira impedindo que aquela casa e aquela família desmoronassem, que morre quando a própria Macondo já caminha para a ruína.

    Depois de atravessar gerações da família Buendía, Úrsula se despede de uma Macondo já transformada pelo tempo. Foto: Divulgação/Netflix

    É impossível não considerar a divergência entre a pompa que marcou a despedida de José Arcádio e a desolação presente na de Úrsula.

    Quando voltamos o olhar para a realidade, inclusive a vivenciada até os dias de hoje, é difícil olhar para essa disparidade como um detalhe inocente. É mais uma particularidade que comprova a grandiosidade de obras como Cem Anos de Solidão, capazes de atravessar as barreiras do tempo e conversar — ainda que por meio do fantástico — com as realidades do presente.

  • Padre Sem Cabeça, Moça do Táxi e Dr. X: lendas de Belém

    Padre Sem Cabeça, Moça do Táxi e Dr. X: lendas de Belém

    Registradas por Walcyr Monteiro, histórias de visagens e assombrações continuam circulando pelo imaginário de Belém décadas depois de terem sido reunidas em livro.

    Na Belém dos tempos em que a televisão ainda não fazia parte da rotina das famílias, histórias de visagens e assombrações ocupavam espaço no imaginário popular. Contadas à noite, nas portas das casas, essas narrativas atravessaram gerações e permanecem vivas.

    Em uma cidade com poucas opções de lazer noturno, os relatos falavam de fantasmas que passeavam de táxi pelas ruas, surgiam próximos a igarapés e até rezavam diante de cruzeiros.

    Mais do que simples crendices, essas histórias guardam vestígios de outra Belém: dos lugares que mudaram, dos hábitos que desapareceram e da memória transmitida de uma geração para outra.

    A Moça do Táxi

    A Moça do Táxi é uma das lendas mais conhecidas de Belém e ainda atrai curiosos ao Cemitério de Santa Izabel. Imagem gerada por inteligência artificial.

    Em um dos corredores principais do Cemitério de Santa Izabel, no bairro do Guamá, uma sepultura simples traz o nome de Josephina Conte, jovem que morreu aos 16 anos.

    Para muitos moradores, porém, o túmulo está ligado a uma das lendas mais conhecidas de Belém: a Moça do Táxi.

    Segundo o conto, por volta das 22h de certa noite, um taxista recebeu uma passageira na avenida Independência. A jovem pediu que ele seguisse até a avenida José Bonifácio, em frente ao Cemitério de Santa Izabel.

    Ao chegar ao destino, a passageira informou que não poderia pagar naquele momento e entregou ao motorista um endereço para que ele recebesse o valor da corrida na manhã seguinte.

    Quando foi ao local indicado, o taxista descobriu que a jovem que reconheceu em um retrato já havia morrido. A passageira seria justamente Josephina Conte.

    A história sobreviveu à passagem do tempo e tornou o túmulo associado à jovem um ponto de curiosidade. Funcionários do cemitério relatam que visitantes ainda procuram informações sobre a lenda e que algumas pessoas acendem velas no local e agradecem por graças alcançadas.

    O Padre Sem Cabeça do Telégrafo

    No bairro do Telégrafo, outra história atravessou décadas e permanece na memória de antigos moradores.

    No final da rua Curuçá, um cruzeiro está associado à aparição do Padre Sem Cabeça.

    Segundo a lenda, um morador conhecido como Zé Bezerra voltava do trabalho tarde da noite quando avistou um padre rezando diante da cruz.

    Ao se aproximar, percebeu algo assustador: a figura usava batina, mas não tinha cabeça.

    Depois do relato de Zé Bezerra, outras pessoas também afirmaram ter visto a aparição.

    Walcyr Monteiro e as histórias que Belém contava

    Parte importante desse imaginário foi preservada pelo escritor paraense Walcyr Monteiro (1940–2019).

    Preocupado em evitar que as narrativas desaparecessem com o tempo, Monteiro começou a registrá-las em 1972, em publicações no extinto jornal A Província do Pará.

    Os relatos acabaram reunidos no livro Visagens e Assombrações de Belém, cuja primeira edição chegou ao público em 1986, com 25 histórias.

    Em 2026, Visagens e Assombrações de Belém completa 40 anos de sua primeira edição. A obra de Walcyr Monteiro permanece como uma das principais referências sobre as lendas urbanas da capital paraense. Foto: Reprodução

    Walcyr Monteiro fazia questão de ressaltar que não havia inventado os relatos. As histórias haviam sido transmitidas pela própria população e foram coletadas pelo escritor entre 1969 e 1972.

    O que antes circulava principalmente pela oralidade encontrou nas páginas uma forma de permanecer. Décadas depois, personagens como a Moça do Táxi e o Padre Sem Cabeça continuam associados a lugares reais da cidade — como se a geografia de Belém também guardasse suas assombrações.

    O Estranho Caso do Dr. X

    Considerada uma das histórias mais antigas da coletânea, O Estranho Caso do Dr. X teria ocorrido no início do século XX.

    O conto acompanha um médico que viveu em Belém durante o ciclo da borracha. Certa noite, um homem bateu à sua porta pedindo ajuda para a realização de um parto.

    A partir daí, a narrativa mergulha em mistérios envolvendo as pessoas atendidas pelo médico e o lugar para onde ele foi conduzido com os olhos vendados: um quarto luxuoso decorado no estilo do século XVII.

    O Igarapé das Almas

    Avenida Visconde de Souza Franco na esquina com a Gaspar Viana, em 1935. O canal era conhecido como Igarapé das Almas e aparece como cenário de antigas histórias de visagens de Belém. Foto: Reprodução/Belém Antiga

    Algumas das histórias preservadas por Walcyr Monteiro também guardam a memória de uma cidade que já não existe da mesma maneira.

    O chamado Igarapé das Almas ficava onde hoje está o canal da avenida Visconde de Souza Franco e aparece como cenário de diferentes histórias de visagens.

    Segundo os relatos, pessoas afirmavam ter visto fantasmas de cabanos procurando armas que teriam sido escondidas no igarapé durante a Cabanagem.

    Na história A Porca do Reduto, também era para o igarapé que corria uma porca que surgia e desaparecia misteriosamente depois de circular pelo bairro.

    O sobrenatural, nesse caso, acaba preservando também uma espécie de mapa antigo de Belém. Quem hoje conhece a Visconde de Souza Franco como uma das grandes avenidas da cidade talvez passe por ali sem imaginar o igarapé que um dia ocupou aquela paisagem — muito menos as almas que, segundo as histórias, vagavam por suas margens.

    Noivado Sobrenatural

    Em Noivado Sobrenatural, uma noite de tempestade serve de cenário para o encontro entre um rapaz e uma jovem. Os dois se aproximam e ele acaba pedindo a mão da moça em casamento.

    Mais tarde, porém, o rapaz descobre que ela já havia morrido.

    A revelação o leva até uma lápide que registrava a morte da jovem em 1918. Diante dela, teria encontrado a mesma aliança que havia entregado à mulher.

    Histórias como essa sobreviveram primeiro porque alguém as contou. Depois, porque outras pessoas decidiram contá-las novamente.

    As portas das casas deram lugar aos livros e, mais tarde, às telas. Belém também se transformou. Igarapés desapareceram da paisagem, bairros cresceram e hábitos cotidianos mudaram.

    As visagens, curiosamente, ficaram.

    Fonte: Visagens e Assombrações de Belém, de Walcyr Monteiro.