Padre Sem Cabeça, Moça do Táxi e Dr. X: lendas de Belém

Representação do Padre Sem Cabeça rezando diante de um cruzeiro em Belém

Registradas por Walcyr Monteiro, histórias de visagens e assombrações continuam circulando pelo imaginário de Belém décadas depois de terem sido reunidas em livro.

Na Belém dos tempos em que a televisão ainda não fazia parte da rotina das famílias, histórias de visagens e assombrações ocupavam espaço no imaginário popular. Contadas à noite, nas portas das casas, essas narrativas atravessaram gerações e permanecem vivas.

Em uma cidade com poucas opções de lazer noturno, os relatos falavam de fantasmas que passeavam de táxi pelas ruas, surgiam próximos a igarapés e até rezavam diante de cruzeiros.

Mais do que simples crendices, essas histórias guardam vestígios de outra Belém: dos lugares que mudaram, dos hábitos que desapareceram e da memória transmitida de uma geração para outra.

A Moça do Táxi

A Moça do Táxi é uma das lendas mais conhecidas de Belém e ainda atrai curiosos ao Cemitério de Santa Izabel. Imagem gerada por inteligência artificial.

Em um dos corredores principais do Cemitério de Santa Izabel, no bairro do Guamá, uma sepultura simples traz o nome de Josephina Conte, jovem que morreu aos 16 anos.

Para muitos moradores, porém, o túmulo está ligado a uma das lendas mais conhecidas de Belém: a Moça do Táxi.

Segundo o conto, por volta das 22h de certa noite, um taxista recebeu uma passageira na avenida Independência. A jovem pediu que ele seguisse até a avenida José Bonifácio, em frente ao Cemitério de Santa Izabel.

Ao chegar ao destino, a passageira informou que não poderia pagar naquele momento e entregou ao motorista um endereço para que ele recebesse o valor da corrida na manhã seguinte.

Quando foi ao local indicado, o taxista descobriu que a jovem que reconheceu em um retrato já havia morrido. A passageira seria justamente Josephina Conte.

A história sobreviveu à passagem do tempo e tornou o túmulo associado à jovem um ponto de curiosidade. Funcionários do cemitério relatam que visitantes ainda procuram informações sobre a lenda e que algumas pessoas acendem velas no local e agradecem por graças alcançadas.

O Padre Sem Cabeça do Telégrafo

No bairro do Telégrafo, outra história atravessou décadas e permanece na memória de antigos moradores.

No final da rua Curuçá, um cruzeiro está associado à aparição do Padre Sem Cabeça.

Segundo a lenda, um morador conhecido como Zé Bezerra voltava do trabalho tarde da noite quando avistou um padre rezando diante da cruz.

Ao se aproximar, percebeu algo assustador: a figura usava batina, mas não tinha cabeça.

Depois do relato de Zé Bezerra, outras pessoas também afirmaram ter visto a aparição.

Walcyr Monteiro e as histórias que Belém contava

Parte importante desse imaginário foi preservada pelo escritor paraense Walcyr Monteiro (1940–2019).

Preocupado em evitar que as narrativas desaparecessem com o tempo, Monteiro começou a registrá-las em 1972, em publicações no extinto jornal A Província do Pará.

Os relatos acabaram reunidos no livro Visagens e Assombrações de Belém, cuja primeira edição chegou ao público em 1986, com 25 histórias.

Em 2026, Visagens e Assombrações de Belém completa 40 anos de sua primeira edição. A obra de Walcyr Monteiro permanece como uma das principais referências sobre as lendas urbanas da capital paraense. Foto: Reprodução

Walcyr Monteiro fazia questão de ressaltar que não havia inventado os relatos. As histórias haviam sido transmitidas pela própria população e foram coletadas pelo escritor entre 1969 e 1972.

O que antes circulava principalmente pela oralidade encontrou nas páginas uma forma de permanecer. Décadas depois, personagens como a Moça do Táxi e o Padre Sem Cabeça continuam associados a lugares reais da cidade — como se a geografia de Belém também guardasse suas assombrações.

O Estranho Caso do Dr. X

Considerada uma das histórias mais antigas da coletânea, O Estranho Caso do Dr. X teria ocorrido no início do século XX.

O conto acompanha um médico que viveu em Belém durante o ciclo da borracha. Certa noite, um homem bateu à sua porta pedindo ajuda para a realização de um parto.

A partir daí, a narrativa mergulha em mistérios envolvendo as pessoas atendidas pelo médico e o lugar para onde ele foi conduzido com os olhos vendados: um quarto luxuoso decorado no estilo do século XVII.

O Igarapé das Almas

Avenida Visconde de Souza Franco na esquina com a Gaspar Viana, em 1935. O canal era conhecido como Igarapé das Almas e aparece como cenário de antigas histórias de visagens de Belém. Foto: Reprodução/Belém Antiga

Algumas das histórias preservadas por Walcyr Monteiro também guardam a memória de uma cidade que já não existe da mesma maneira.

O chamado Igarapé das Almas ficava onde hoje está o canal da avenida Visconde de Souza Franco e aparece como cenário de diferentes histórias de visagens.

Segundo os relatos, pessoas afirmavam ter visto fantasmas de cabanos procurando armas que teriam sido escondidas no igarapé durante a Cabanagem.

Na história A Porca do Reduto, também era para o igarapé que corria uma porca que surgia e desaparecia misteriosamente depois de circular pelo bairro.

O sobrenatural, nesse caso, acaba preservando também uma espécie de mapa antigo de Belém. Quem hoje conhece a Visconde de Souza Franco como uma das grandes avenidas da cidade talvez passe por ali sem imaginar o igarapé que um dia ocupou aquela paisagem — muito menos as almas que, segundo as histórias, vagavam por suas margens.

Noivado Sobrenatural

Em Noivado Sobrenatural, uma noite de tempestade serve de cenário para o encontro entre um rapaz e uma jovem. Os dois se aproximam e ele acaba pedindo a mão da moça em casamento.

Mais tarde, porém, o rapaz descobre que ela já havia morrido.

A revelação o leva até uma lápide que registrava a morte da jovem em 1918. Diante dela, teria encontrado a mesma aliança que havia entregado à mulher.

Histórias como essa sobreviveram primeiro porque alguém as contou. Depois, porque outras pessoas decidiram contá-las novamente.

As portas das casas deram lugar aos livros e, mais tarde, às telas. Belém também se transformou. Igarapés desapareceram da paisagem, bairros cresceram e hábitos cotidianos mudaram.

As visagens, curiosamente, ficaram.

Fonte: Visagens e Assombrações de Belém, de Walcyr Monteiro.

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